A Sexualidade de todo mundo
*Jackeline
Aristides, Enfermeira, Feminista, Militante do Partido Socialismo e Liberdade
Quando falamos do “Nu”,
não necessariamente estamos falando do “Nu erotizado”. Deixar de falar do “Nu”
dá margens para tantas violações que não conseguiremos nem dimensionar, ao
negarmos a sexualidade humana por puro puritanismo e religiosidade, e não de forma
ampla, saudável, com todas as dimensões humanas, só fará com que vários
problemas da nossa humanidade se perpetuem.
Não debater, e esconder
embaixo do tapete, tratando como tabu não ajuda. Hoje, há inúmeras adolescentes
grávidas, por quê? Aí vão me falar “ah, porque há uma libertinagem geral”.
Vamos lá então: primeiro, ser autônoma (estou falando como mulher cis) e livre,
não é necessariamente “dar para quem eu quiser”, e sim “dar para quem eu
quiser, na hora que eu quiser, e se eu quiser” se eu pensar apenas em um dos
aspectos da sexualidade, e não porque a música x ou y falou (diga-se de
passagem do funk, passando pelo sertanejo e até em músicas mais elitistas tem
sim machismo) falou para eu fazer, esse é o primeiro ponto. Assim, “dar” sem se
proteger de doenças sexualmente transmissíveis, ou de uma gravidez no mínimo é
um prazer sem prazer. “Dar” ou “receber” só é legal, se eu não fui forçada, se
não tem violência, se meu companheiro ou companheira me esperou na
concretização do orgasmo. Será que nossos jovens sabem disso? Não! E, por que
não? Por que não sentamos com eles em momento algum, porque esse tema não é
debatido na família “por proteção”, a escola não debate, a saúde não debate, a
assistência não debate, e daí? Como que eles vão aprender sobre tudo isso:
Tesão, proteção, autocuidado, orgasmo?
Abrindo um parêntese
aqui, a gente debate tão pouco a sexualidade das mulheres, que estudo recente
mostrou que 30% das mulheres nunca tiveram orgasmo em suas relações, pode isso?
Ou só os homens tem o direito de ter?
Será que colocar shorts
curtos ou salto alto necessariamente está empoderando as mulheres como
gostaríamos, como falam as músicas? Será que estas mulheres deixaram
necessariamente de contestar o ideal machista, conseguiram ganhar igual aos homens?
Não precisam mais ter tripla jornada de trabalho? Deixaram de ser escravas do
lar? Será que não são mais expostas ao machismo do dia a dia pela
“coisificação”?. Então, mesmo elas não tem a liberdade plena, penso eu.
Entretanto, não posso falar por elas.
E, não é só isso, a
plena liberdade é tão polissêmica, que para mim, e não para outro tem
significados muito peculiares, porque a liberdade é plural, significa acesso à
saúde, educação, cultura, lazer e liberdade política na minha perspectiva.
Porém, mesmo sendo um ideário individual, existem elementos que são inerentes a
todxs quando o tema é conceituação da liberdade.
Segundo, quando não
falamos da sexualidade humana abertamente, nunca saberemos sobre a importância
do autocuidado, nunca saberemos da importância da palpação das mamas, daí não conseguiremos nos prevenir do
câncer de mama e útero, não conseguiremos discenir entre um corrimento
“natural”, de algo patológico, não conseguiremos saber o que é prazer, porque
de fato não nos conhecemos. Não saberemos de nossa fisiologia, nada. Porque
tudo o que falei aqui é tabu.
Terceiro, quando não
falamos de sexualidade humana, nós mulheres continuaremos sofrendo violência
dos homens dentro de casa porque temos que “ser submissas”, continuaremos
sofrendo assédio dos homens dentro dos ônibus porque temos medo de denunciar,
continuaremos aceitando alguns padres e pastores assediando mulheres, crianças
e jovens dentro das igrejas . Ah, e nossas crianças continuarão sofrendo
violência sexual porque não falamos de autoproteção com elas, porque não
falamos de sexualidade em lugar nenhum!
Olha, quantas violações
só porque não debatemos sexualidade!
Comentários
Postar um comentário