Menina de bamba e a necessidade do meu feminismo
*Por
Jackeline Aristides, feminista, enfermeira, antiproibicionista
e
militante do PSOL- Partido Socialismo e Liberdade
Não
nasci feminista, me forjei feminista para sobreviver do machismo que
nasceu primeiro.
Fui
criada por meio de uma educação machista e opressora, e acredito
que desde muito
jovem
eu já era feminista e nem sabia, batia de frente com posturas
opressoras e não
aceitava
desaforo de meninos quando só eles tinham a quadra de esporte e não
cediam a
quadra
para as meninas jogarem futebol. Entrei em confusão boa muitas vezes
por conta
disso,
mas me fortaleci, não ia aceitar menino algum me agredir verbalmente
ou
fisicamente,
ou dar de dedo na minha cara. Nos bastidores da família eu era a
“rebelde”,
sempre
senti que tinha uma educação diferente por ser mulher.
Passado
o tempo tive um companheiro que se dizia de esquerda, mas falava que
eu “não
me
expressava bem nas reuniões de partido, que não conseguia fazer
sínteses” (acho que
bem
ele que não conseguia) e isso foi me fazendo se fechar.
Ressignifiquei meu feminismo
e
foi com este feminismo, e agora com a oportunidade de saber que o que
eu estava
fazendo
a vida toda era a luta feminista, que dei um basta e me empoderei
cada vez mais.
Precisei
ser feminista para enfrentar o assédio dentro de ônibus e dentro de
movimento de
esquerda,
inclusive.
Saí
candidata algumas vezes com o peso de ser criticada por companheiros
de “esquerda”
que
eu só sabia debater feminismo, mas foi por este feminismo que pude
estar aqui
disputando
eleições em meio a tantos homens. Companheirxs, quando nós
mulheres
saímos
candidatas, entendam, não tem outro jeito de não debater feminismo,
é que só
assim
continuaremos disputando a política e sobrevivendo no meio
político.
Quando
saí candidata pela segunda vez à vereadora, os parentes e pessoas
próximas da
minha
mãe falavam “Mas o quê sua filha quer? Ela vai sair candidata de
novo?”, “Ah, a sua
filha
já tirou da cabeça essa idéia? De onde ela tirou isso? Ah, isso
vai passar”, em tom de
deboche
sempre. Nunca entenderam. Meu pai mesmo nunca aprovou, só entendeu o
meu
ideal
quando viu que a Dilma venceu as eleições e que era possível uma
mulher chegar ao
poder.
Para
sairmos candidatas, temos que passar por inúmeras provas, carreira,
vida pessoal,
aceitação,
muito mais do que muito homem passa por aí. Muitas de nós temos
filhos para
cuidar,
enfim, são tantos fatores. Durante a campanha nos defrontamos com
frases
machistas,
do tipo “Não voto em mulher, gosto das suas propostas, mas você é
mulher”,
vindo
de pessoas de direita e de esquerda, de homens e de mulheres,
infelizmente. Por ter
me
tornado feminista e por participar de lutas por igualdade de direitos
nos movimentos
LGBTTT,
mesmo não sendo uma LGBTTT, as pessoas acham que sou, mas não
importa.
Podem
associar ao fato de que para ser mulher cis tenho que usar cabelos
compridos e
salto
alto! O que não cumpro.
É
isso aí camarás, reflexões para todxs nós! Garantir paridade nas
eleições não garante
nossa
participação nas eleições, são questões estruturais e
superestruturais, mas não
naturais
e podem ser debatidas e enfrentadas coletivamente!
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