Movimentos sociais e o PSOL, ou PSOL e os movimentos sociais?
Contribuição teórica: Movimentos sociais e o PSOL, ou PSOL e os movimentos sociais?
Por Jackeline Aristides
O emergente aumento do consumo dos brasileiros mostra a aparência de melhora do nível de vida da população e obscurece a luta por melhores condições de moradia, saúde e educação. E, isso se reflete diretamente na luta e conscientização das massas, na materialidade da cooptação de lideranças e na aparente apatia política, e este “horizonte” tem feito nos debruçar sobre a relação do partido socialista e movimento social.
Na luta diária com o movimento nos foram exigidos menores ou maiores envolvimentos, que fizeram muitos de nós pensarmos como deveria ser este encontro. Muitos apontavam na orientação de proximidade do partido e movimento, outros tantos na direção do distanciamento e apenas observação. Mais do que isso foi necessário resgatar alguns clássicos para compreender qual é a o papel do partido socialista e a organização dos trabalhadores ao longo da história.
O envolvimento com os movimentos tem nos proporcionado algumas impressões que ora demonstram coerência com as evidências demonstradas por autores clássicos brasileiros, como Florestan Fernandes, ora mostram coerência com autores ditos pós modernistas, como Foucault, por exemplo.
Existe uma longa discussão acerca do caráter dos movimentos sociais, e dos movimentos populares. Para alguns marxistas ortodoxos alguns movimentos populares são excluídos da agenda, por não apresentarem de imediato o antagonismo de classe, são movimentos que a curto prazo envolvem a melhoria das condições de vida de pessoas trabalhadoras e que por algum motivo não conseguiram enxergar o horizonte socialista, ou mesmo a necessidade de superação do capital. Pudemos perceber algumas dessas oscilações na luta por moradia quando a necessidade mediata envolveu os lutadores e lutadoras.
Foucault e outros autores tentam aproximar estes dois movimentos em um só, como genuínas aglomerações sociais que lutam por direitos e por isso mesmo independentes. Sejam eles movimentos por liberdade sexual, ambientais ou étnicos. Alguns com origem no liberalismo econômico e cultural, outros apoiados ou não em instituições. Pudemos também perceber alguns desses movimentos durante nossos encontros de militância, e dialogamos com eles, pois acreditávamos que poderiam existir o sentido da superação da sociedade de classes.
Aparentemente algumas lutas mais específicas, como é o caso da luta por uma saúde estatal e com participação popular, tornaram-se necessárias, e ao longo do tempo conseguiram mostrar a necessidade da luta por uma sociedade socialista. Embora, no começo pudesse até passar por uma luta pontual, reformista e burguesa.
Florestan Fernandes (1980) pontua que o movimento é uma confluência de forças que se voltam contra a ordem existente, ou para introduzir reformas antiburguesas, ou para alimentar uma revolução contra a ordem e organizar a sociedade, a economia e o sistema de poder. E, os partidos são a forma de organizar institucionalmente essas forças, aglutinando-as, e em alguns momentos organizando-os. Para ele, quando o suporte material e a base política das potencialidades de negação da ordem das classes trabalhadoras são incipientes, amorfas ou fracas, o movimento vem a ser prioritário e o partido vem como elemento de reforço. Inversamente, quando as classes trabalhadoras possuem dinamismos bastante fortes e coesos, e espaços políticos suficientes para organizar o movimento operário, o partido passa a ter o papel de centralização das forças.
Os dois são interdependentes, sem o partido nunca haverá educação socialista das massas e, portanto, nunca haverá movimento socialista (Florestan Fernandes, 1980). Isso porque o movimento socialista não se dá no abstrato, como pontua Foucault, ele se dá concretamente, historicamente.
Boa parte dos movimentos sociais tem dirigido sua intervenção, exclusivamente contra a perda de direitos conquistados ao longo das lutas operárias dos séculos XIX e XX (LIMA, 2010). E, esta parece ser uma nova tarefa que teremos de enfrentar, agora com as novas roupagens do neoliberalismo, enrustida da criminalização dos movimentos sociais.
Para LIMA (2010), há autores, que pregam o esvaziamento do espaço público, e o esgotamento das energias utópicas, do projeto comum, e a centralidade do imediatismo e da vida privada como componentes desta desistência do “agir coletivamente”.
Essa explicação mostra-se contraditória, pois também foi germinado algo semelhante anteriormente à Revolução mexicana, a antes população “pacata e ignorante” levou a cabo a revolução.
Ainda com esta autora, no contexto atual, os movimentos tendem a ter uma forma mais fluida, sem a capacidade de produzir uma organização mais permanente. Afirmam alguns autores que os movimentos sociais da atualidade evitam o confronto com outros “atores” individuais e coletivos, bem como evitam críticas às instituições, caracterizando-se como associações provisórias, diluídas nas fronteiras de classe. Lembrando que os lutadores e lutadoras configuram um quadro heterogêneo de trabalhadores informais, desempregados e flexibizados. Frente a este quadro alguns movimentos sociais tem reinventado importantes formas de confronto, e a dinâmica das lutas concretas são impulsionadas pela miséria e pela ausência ou precariedade de uma visão revolucionária, e líderes que avançam em uma luta socialista (LIMA apud IASI, 2007).
Assim é importante lembrarmos o momento em que passamos e que o PSOL atravessa, acrescido da sua recente criação e incipiente inserção nas massas. Assim, ou ele possui a difícil tarefa de auto-organização para permitir a aglutição dos movimentos, ou ainda, resta-nos a dúvida, necessitamos priorizar o movimento? Para nós militantes socialistas do século XXI a tarefa é dupla.
BOGO, Ademar (org.). Teoria da Organização Política. In: Movimento socialista e partidos políticos. Florestan Fernandes (1980). São Paulo: Expressão Popular, 2008.
BRAVO, Maria Inês Souza; D´ACRI, Vanda; MARTINS, Janaina Bilate (orgs). Movimentos Sociais, Saúde e Trabalho. In: Movimentos Sociais e a Cidade: determinantes e Condicionantes da Ação Coletiva na Atualiadade. LIMA, Sonia Lucio Rodrigues. Rio de Janeiro: ENSP/Fiocruz, 2010.
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