Texto de minha autoria sobre aborto e relações de gênero na sociedade capitalista.

Quero compartilhar com vocês um texto de minha autoria sobre o aborto e relações de gênero na sociedade capitalista, esta pequena contribuição faz parte das formação política que o núcleo feminista do Psol Londrina tem realizado. É parte do acúmulo que tenho na área de saúde onde atuo e na militância política e feminista.
Mulheres pelo Direito de Decidir!
Jackeline Lourenço Aristides – Enfermeira - Especialista em Saúde Mental, residência multiprofissional em Saúde da Família, e mestranda em Saúde Coletiva
A mulher no capitalismo tem sido duplamente explorada, o que antes começava no lar e com a opressão do marido, agora se dá no mercado de trabalho por meio dos patrões, sem é claro desconsiderarmos a opressão da mulher pela mulher nestes espaços. E, quando falamos de sexualidade feminina a sociedade logo remete ao reducionismo da saúde reprodutiva, com o papel de mera reprodutora da massa operariada que dará prosseguimento à perpetuação do capital. A mulher sempre foi considerada pelas políticas públicas no binômio gestante/puérpera, sem considerar as dimensões e determinantes de sua sexualidade. Vale pontuar que nem ao menos na política de planejamento familiar as mulheres são devidamente contempladas, já que nós não temos acesso e nem opção na escolha dos métodos contraceptivos. As opções de anticoncepcionais orais são escassas nas unidades de saúde, os injetáveis não atendem à demanda da população, e poucas mulheres conhecem outros métodos como o DIU ou não foram instruídas durante suas vidas para o uso do preservativo. Este último método só aparece em quantidade para a população em época de propagandas de baixo alcance do Ministério da Saúde durante o carnaval, e praticamente desaparecem das unidades durante o ano. É o “rinoceronte branco”, assim como os preservativos femininos que as mulheres ao menos conhecem. Neste processo perpetua a baixa escolaridade das mulheres que não conseguem compreender as bulas no momento de tomar o anticoncepcional, já que os profissionais de saúde ao menos as orientam. Ao lado de toda esta omissão por parte do Estado acontece algo tão contraditório para a questão da saúde da mulher que é o número crescente de laqueaduras. O Brasil é campeão mundial neste tipo de procedimento e, por que mesmo assim milhares de mulheres não tem acesso ao planejamento familiar? A reflexão vai de encontro a uma política médico-centrada, higienista e mutiladora, onde mulheres adultas jovens são empurradas pela sociedade a uma intervenção cirúrgica sem conhecerem outros métodos contraceptivos não mutiladores. Aqui vemos mais uma política neomalthusiana do Estado que quer a todo o custo a diminuição da natalidade por meio da mulher.
Dentro de todo este contexto temos o aborto inseguro, fruto de uma sociedade machista, sexista, hipócrita que criminaliza as mulheres que vivenciam um momento de vulnerabilidade física, psicológica e social. Todos os dias milhares de mulheres sofrem as conseqüências deste procedimento seja em ambientes pouco assépticos, ou mesmo dentro de casa com os meios mais destrutivos possíveis. Muitas destas só chegarão aos serviços de referência quando seu estado clínico encontra-se deplorável, com intensa dor, hemorragia, ou mesmo num estágio de perfuração uterina que poderá levá-las à esterilidade e nos casos mais trágicos à morte. Para estas, a procura por atendimento se dará através de muito sofrimento físico e psíquico, pois sabem que encontrarão pouco acolhimento e muita criminalização nas unidades de emergência. São mulheres que ficarão nos pronto-socorros obstétricos em macas à espera de atendimento por mais tempo do que as gestantes “que ao invés de abortar está ali dando `a luz a uma vida e a um ser!”
Os índices de aborto inseguro são assustadores e permeiam a vida das mulheres brasileiras, há uma equivalência de cerca de 30% de abortos em relação aos nascidos vivos. E, está relacionado a 21% das mortes maternas depois da pré-eclâmpsia e da rotura uterina, sendo que 14% destas mortes estão entre as adolescentes. As mulheres negras são as mais vulneráveis para o aborto inseguro, ou seja tem o risco relativo de 2,3 vezes mais do que as mulheres brancas de terem um aborto inseguro. O “cytotec” é responsável por 57% destes abortos, trazendo repercussões já mencionadas para a saúde da mulher, além de seqüelas neurológicas graves para o feto nos casos de abortos mal sucedidos.
E, o que é mais cruel em todo este contexto, é que a América Latina tem as leis mais rígidas em todo o mundo, e é a região que mais tem abortos e mortes maternas, sendo que 96% dos abortos praticados tem origem nestas populações. Em tempos de crise econômica houve um aumento de 50% do número de mulheres abaixo da linha da pobreza, o que as empurra muitas vezes para o aborto inseguro. Temos que ter a clareza que mesmo na sociedade socialista o aborto vai existir, e o direito de decidir sobre o seu próprio corpo é processo nato. O Estado neste caso deverá ser portador de uma política laica, sem vícios e sem valores morais.
Jackeline Lourenço Aristides – Enfermeira - Especialista em Saúde Mental, residência multiprofissional em Saúde da Família, e mestranda em Saúde Coletiva
A mulher no capitalismo tem sido duplamente explorada, o que antes começava no lar e com a opressão do marido, agora se dá no mercado de trabalho por meio dos patrões, sem é claro desconsiderarmos a opressão da mulher pela mulher nestes espaços. E, quando falamos de sexualidade feminina a sociedade logo remete ao reducionismo da saúde reprodutiva, com o papel de mera reprodutora da massa operariada que dará prosseguimento à perpetuação do capital. A mulher sempre foi considerada pelas políticas públicas no binômio gestante/puérpera, sem considerar as dimensões e determinantes de sua sexualidade. Vale pontuar que nem ao menos na política de planejamento familiar as mulheres são devidamente contempladas, já que nós não temos acesso e nem opção na escolha dos métodos contraceptivos. As opções de anticoncepcionais orais são escassas nas unidades de saúde, os injetáveis não atendem à demanda da população, e poucas mulheres conhecem outros métodos como o DIU ou não foram instruídas durante suas vidas para o uso do preservativo. Este último método só aparece em quantidade para a população em época de propagandas de baixo alcance do Ministério da Saúde durante o carnaval, e praticamente desaparecem das unidades durante o ano. É o “rinoceronte branco”, assim como os preservativos femininos que as mulheres ao menos conhecem. Neste processo perpetua a baixa escolaridade das mulheres que não conseguem compreender as bulas no momento de tomar o anticoncepcional, já que os profissionais de saúde ao menos as orientam. Ao lado de toda esta omissão por parte do Estado acontece algo tão contraditório para a questão da saúde da mulher que é o número crescente de laqueaduras. O Brasil é campeão mundial neste tipo de procedimento e, por que mesmo assim milhares de mulheres não tem acesso ao planejamento familiar? A reflexão vai de encontro a uma política médico-centrada, higienista e mutiladora, onde mulheres adultas jovens são empurradas pela sociedade a uma intervenção cirúrgica sem conhecerem outros métodos contraceptivos não mutiladores. Aqui vemos mais uma política neomalthusiana do Estado que quer a todo o custo a diminuição da natalidade por meio da mulher.
Dentro de todo este contexto temos o aborto inseguro, fruto de uma sociedade machista, sexista, hipócrita que criminaliza as mulheres que vivenciam um momento de vulnerabilidade física, psicológica e social. Todos os dias milhares de mulheres sofrem as conseqüências deste procedimento seja em ambientes pouco assépticos, ou mesmo dentro de casa com os meios mais destrutivos possíveis. Muitas destas só chegarão aos serviços de referência quando seu estado clínico encontra-se deplorável, com intensa dor, hemorragia, ou mesmo num estágio de perfuração uterina que poderá levá-las à esterilidade e nos casos mais trágicos à morte. Para estas, a procura por atendimento se dará através de muito sofrimento físico e psíquico, pois sabem que encontrarão pouco acolhimento e muita criminalização nas unidades de emergência. São mulheres que ficarão nos pronto-socorros obstétricos em macas à espera de atendimento por mais tempo do que as gestantes “que ao invés de abortar está ali dando `a luz a uma vida e a um ser!”
Os índices de aborto inseguro são assustadores e permeiam a vida das mulheres brasileiras, há uma equivalência de cerca de 30% de abortos em relação aos nascidos vivos. E, está relacionado a 21% das mortes maternas depois da pré-eclâmpsia e da rotura uterina, sendo que 14% destas mortes estão entre as adolescentes. As mulheres negras são as mais vulneráveis para o aborto inseguro, ou seja tem o risco relativo de 2,3 vezes mais do que as mulheres brancas de terem um aborto inseguro. O “cytotec” é responsável por 57% destes abortos, trazendo repercussões já mencionadas para a saúde da mulher, além de seqüelas neurológicas graves para o feto nos casos de abortos mal sucedidos.
E, o que é mais cruel em todo este contexto, é que a América Latina tem as leis mais rígidas em todo o mundo, e é a região que mais tem abortos e mortes maternas, sendo que 96% dos abortos praticados tem origem nestas populações. Em tempos de crise econômica houve um aumento de 50% do número de mulheres abaixo da linha da pobreza, o que as empurra muitas vezes para o aborto inseguro. Temos que ter a clareza que mesmo na sociedade socialista o aborto vai existir, e o direito de decidir sobre o seu próprio corpo é processo nato. O Estado neste caso deverá ser portador de uma política laica, sem vícios e sem valores morais.
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